Apenas algumas viagens, sem itinerário certo. Se você embarcou, paciência. Fico feliz se você entendeu.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
Sad Blues
Andou, cansou e sentou-se no ali no canto mesmo.
Parou para respirar, o ar lhe faltava aos pulmões. Já não há o mesmo vigor de antes, afinal de contas o encargo carregado era penoso ao longo da jornada.
Esfregando as mãos contra a testa semi calva e preenchida com as rugas do tempo, espantou-se com uma única gota lacrimal que escorreu de seus olhos marejados e a sentiu tocar seus lábios. O sabor perturbador das dores internas.
Seu relógio já marcava aquilo que antes era impensado. O tempo anda, e muito mais rápido que uma simples caminhada sonolenta.
O sabor do alcatrão tóxico marca a primeira tragada num cigarro mal fumado, a boca trêmula denuncia seu estado emocional. Pensativo, procura achar quando se obteve alguma coragem. Onde foi que realmente se venceu a dor?
De tanto tentar esquecê-la, não se deu conta que ela sempre foi a sua única companheira real. Só agora, só neste micro momento de reflexão chegou-se à injuriosa verdade. Estava com ele para onde quer que o fosse.
No movimento de reabrir as pálpebras que antes fechadas se abririam para receber o choro, não conseguiu chorar. Algo impedia que ele transbordasse sua angustia. Como se fosse um abraço de sua amiga, não o deixando se livrar dela, unidos em matrimônio eterno, como se fossem um só.
Isso era o que mais lhe incomodava no momento, não conseguir expô-la para o mundo. Tímida, sua concubina não gostava de se mostrar. Era uma aliança secreta, coisa muito particular.
Respirou fundo, uma pausa para lembrar o quanto foi fraco em não conseguir desnudar seu sofrimento, o quanto teve de atuar como comediante da vida para não ser notado como o contrário. Em um famoso rir para não chorar, as pessoas nunca saberiam de seu maior segredo. Ele era casado com a dor.
Levanta-se, passos inibidos se iniciam.
A jornada continua, de rosto re-maquiado pelas mentiras que tem que mostrar ao mundo, ensaia um sorriso falsificado e vai em direção ao perdido.
Mesmo sabendo que, toda vez que parar para pensar, sua velha amiga mandará lembranças.
*thanks to Mrs. Shirley Johnson for "As the years go passing by"
segunda-feira, 30 de abril de 2018
Bom conversar contigo.
Escrevo quando tenho necessidade.
E mesmo com milhões de coisas para fazer, aqui estou novamente. No hábito cretino de escrever para você, mesmo sabendo que nada do que aqui foi dito chegará a ti.
É que nesse exato momento, eu me peguei pensando em você. O quanto de sentimento ainda tenho.
Soa patético eu sei. Acho que você seria a última alma viva que conseguiria enxergar com sensibilidade e exatidão o que os meus olhos dizem a mim diante de um espelho opaco.
Acho que sempre terei como uma falta o vazio que tua ausência causa.
Isso não são lamentações, não.
Saudosismo talvez, mas não há de se lamentar. Como cansa isso.
Hoje já não existe mais sentimentos dúbios, não há dicotomia de paixões. Aliás, não há mais paixão.
Mas foi por ti, que ainda jovem, senti paixão. E sinto falta de sentir paixão. Não que não exista amor em mim, mas a paixão se foi. Isso é morrer um pouco.
Os sabores, a cores, os aromas do mundo são pálidos. As palpitações tão prazerosas, não existem mais. A existência virou um dia nublado.
Claro que há risos, e serenidade. Mas o clima lá fora é frio, sempre frio.
Não sei se é a idade, se minha bateria está acabando, mas é assim que hoje minha vista enxerga vida.
E é tua pessoa que me faz lembrar de quando foi a última vez que senti calor. Soa estranho, eu sei. Haja vista que era sabido por nós lá no fundo, que nunca iriamos florescer. Entretanto é a ti que meu coração remete quando me lembro de paixão.
E eu te vejo hoje toda dona do mundo, feliz com as escolhas que fez. Eu fico muito feliz de ter saído da sua vida, pois sou sabedor de minhas limitações, e uma delas é saber que nunca lhe daria o sorriso que carregas agora. Não me sinto mal por isso, são apenas constatações.
Acho bom parar por aqui. Já desabafei.
Foi bom conversar contigo também.
Assinar:
Postagens (Atom)
